27/04/16

Escutar: há forma de aprender?

«A escola tem de aprender a escutar quem não escuta, para ensinar a todos a arte de ouvir.»
(Gabriel Perissé)


A escola é feita de pessoas. Habitada. Construída. Partilhada. Passamos (adultos e crianças) na escola muito mais tempo atualmente do que passamos com a nossa família. É por isso (e por muito mais, eu acredito) que a escola é, também, família. A escola pode ser, e é muitas vezes, a família de tantos. E dizemos que não deve e não pode ser. Desejávamos que não fosse. Mas é. Espaço de conforto, de compreensão, de acolhimento, de encontro, de afeto. Claro que pode ser tudo o contrário também, e isso é aquilo que mais ouvimos, mas prefiro e quero falar do que se fala tão pouco e que é a verdadeira natureza e força da escola: as pessoas. Aquelas que estão em sofrimento, por tantos motivos, e que dia após dia continuam a entrar na escola com um sorriso. E ao nosso lado, muitas vezes, está quem mais precisa de um abraço, de um mimo, de uma atenção, de uma palavra "mágica". Porque todos precisamos: alunos, professores, funcionários, técnicos. Somos todos pessoas, antes (durante e depois) de todos os cargos, funções ou designações que nos põem no currículo. Todos precisamos de sentir que alguém nos viu, que compreendeu o nosso sofrimento num olhar mais baço, na procura de um abraço mais demorado, num andar mais lento, numa resposta mais evasiva, num silêncio inesperado, até na nossa ausência... Todos queremos ser compreendidos.
E se "ouvir o sofrimento é um ingrediente essencial para gerar compreensão e amor" (Thich Nhat Hanh), o que estamos a fazer a este propósito na escola? Será que (nos) ouvimos o suficiente? Este é um dos temas que costumo trabalhar em contexto de formação e na mediação e sobre o qual muitas pessoas me perguntam: “mas pode-se aprender a escutar?”. Eu costumo responder que não devia ser preciso, na verdade era bom que não houvesse essa necessidade. A questão é que vivemos num mundo cheio de ruídos (à nossa volta e dentro de nós), o que nos afasta da vontade e da disponibilidade para ouvirmos os outros (e até para nos ouvirmos a nós próprios em primeiro lugar!). E por isso sim, pode-se e deve-se urgentemente, na minha opinião, aprender (logo, ensinar) a escutar, tal como fazemos na Mediação de Conflitos, em que a escuta ativa é uma das técnicas fundamentais para a resolução ou transformação do conflito. A este propósito recordo Carl Rogers, com esta belíssima e profunda reflexão, com a qual penso que nos identificamos se já fomos ouvidos e compreendidos a este nível: «quase sempre, quando uma pessoa se dá conta de que foi ouvida a um nível profundo, os seus olhos enchem-se de lágrimas. Penso que, de certa forma, a pessoa chora de alegria. É como se dissesse: “graças a deus que alguém me escutou’. Alguém que sabe o que significa ser eu.” Nesses momentos, imagino um prisioneiro numa masmorra, a emitir diariamente uma mensagem em código morse: “Alguém me ouve? Está aí alguém?” Até que, por fim, um dia ele ouve umas pancadinhas distantes que soletram a palavra: “Sim”. Com essa simples resposta, ele é libertado da sua solidão e torna-se novamente um ser humano.»
Podem dar-nos muitas estratégias, implementar muitos planos, alterar currículos e metas, tirar ou acrescentar exames (e todas estas questões são importantes, não digo o contrário!), mas o mais importante é o que somos e o que fazemos com o que somos, é isso que, em minha opinião, gera mudança e é isso que falta nas escolas, hoje. Falta cada vez mais foco no essencial: envolvimento, disponibilidade, ação e mais compreensão e amor. Porque quando o conseguimos fazer, os milagres de que andamos todos à procura acontecem. Só mesmo assim.
 
Artigo publicado na Revista Mais
 
 

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