11/07/15

O Poder do Diálogo


Ouço muitas vezes os dois lados: professores e alunos. Tento juntar as pontas. Ligar os pontos. Unir. Construir uma ponte. Às vezes é difícil. Outras, não gosto de o dizer, mas tenho que o assumir, é praticamente impossível. Quando estamos totalmente centrados na nossa posição e perspetiva, não conseguimos ver o outro lado, nem sequer colocar a hipótese de poder existir alguma razão (o que não nos retira a nossa). Aconteceu-me algumas vezes ao longo do ano. Mas também me aconteceu o contrário. E, como gosto de me focar no positivo (que é também o que de menos se partilha sobre a escola), é sobre uma dessas situações que me marcou, como mediadora na escola, que vos falo hoje. 

Há já algum tempo que trabalhava com um aluno, que chegou até mim devido a uma situação de cyberbullying. Depois da resolução positiva da situação, continuei a intervir devido a situações de conflito na sala de aula, algumas das quais com a diretora de turma. Um dia, na procura de soluções, o aluno sugere que fizéssemos uma sessão de mediação com a professora, pois considerava que podia ser uma forma de resolver a situação. Dizia-me ele: “se me ajudou a mim e aos meus colegas, podia ajudar neste caso com a DT”. Comprometi-me a conversar com a professora, sem lhe poder garantir que a mediação acontecesse. Confesso que tive algum receio que a proposta não fosse aceite. Conhecia a professora e parecia-me uma pessoa muito disponível e aberta, mas não sabia até que ponto essa disponibilidade se estendia a uma sessão de mediação com um aluno. Abordei a professora e a reação foi fantástica e imediata: “Claro que sim! Acho que estamos mesmo a precisar!”. Fiquei entusiasmada. Conversei com o aluno, marcámos uma hora compatível para todos e encontrámo-nos. O que aconteceu a seguir foi um dos momentos que mais me emocionou na escola e que mais me fez reforçar a certeza que só podemos construir pontes através do diálogo.


Dialogar implica criar a possibilidade de, não só nos entendermos a nós próprios, mas sobretudo de entender o outro. É preciso reconhecer que se pode ter errado e perceber como essa nossa falha pode ter afetado o outro. Sem que isso seja na verdade uma falha. É preciso estar disponível para expressar o que se sente, mas também para ouvir e procurar perceber o que o outro lado sentiu. É desta forma que se gera mudança em si próprio e na relação com o outro.

Recordo aquele momento. A professora e o aluno sentados, um com o outro. A encontrarem-se num olhar. A descobrirem e a surpreenderem-se com o ponto de vista do outro. A desconstruírem ideias que tinham criado apenas por si. A criarem uma ponte naturalmente, porque o que sentiam era comum. Apenas nunca tinham tido a oportunidade de se sentarem, daquela forma, e de conversarem. Sem pressões, sem pressas. Sem juízos de valor. Todo este processo, pela sua simplicidade e pelo que foi partilhado de forma tão genuína, nos comoveu a todos. A partir dali, a tensão diminuiu, o olhar tornou-se cúmplice, as palavras transformaram-se em sinais. E o papel da professora e diretora de turma saiu reforçado. O aluno passou a vê-la de outra forma, a respeitá-la ainda mais. Todos ganhámos. Todos crescemos, acredito.

A mediação na escola pode ser simples e ter um impacto extraordinário, não só nas relações no imediato, mas também como formação em termos relacionais e sociais para o futuro. Esse impacto resulta do poder do diálogo. Só que às vezes esquecemo-nos dele, submersos em tantas tarefas e estereótipos. Como é que ensinamos a empatia e o respeito? Fazendo. Dando o exemplo. Ouvindo e estando disponível para o outro. Para mim, como mediadora, ver um professor e um aluno sentados, a dialogar, a procurar soluções para algum desencontro que tenham tido ao longo do caminho, é das experiências que mais dão sentido e ampliam o que procuro fazer na escola. Porque não fazê-lo mais vezes? 

Imagem: Edutopia
Artigo publicado no ComRegras


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