28/04/15

Às vezes é "só" ouvir





Vivemos num mundo cheio de ruído e distrações, estamos sempre em stress, andamos constantemente a correr. No meio de tantas coisas, a maior parte sem qualquer sentido, arriscamo-nos a perder daquilo que é realmente importante e essencial. Ouvir o outro parece ser um exercício cada vez mais difícil, cada vez mais raro nos dias de hoje. A escuta ativa, de que tanto se fala (mas que pouco se pratica), implica não só ouvir o que o outro diz, ou seja o conteúdo, mas também a forma como se diz, ou seja os sentimentos e emoções, tantas vezes “escondidos”, mas tão importantes. Para isso, é preciso tempo. E, mais do que tempo, é preciso disponibilidade e verdadeiro interesse e atenção ao outro.  A questão é: será que hoje temos esse interesse? Ou será que andamos muitas vezes mais centrados em nós próprios e pouco disponíveis para o outro? Este outro são também os nossos filhos, os nossos alunos…
Todos os dias na escola sinto isto: não estamos a ouvir os miúdos. E eles dizem-nos tantas coisas, de tantas formas!... Só que nós continuamos surdos. E eles continuam a gritar por nós. Está na hora de pararmos, de nos sentarmos com eles e de os ouvirmos, verdadeiramente. Verdadeiramente significa com vontade e disponibilidade, com interesse genuíno, sem juízos de valor ou estereótipos, despidos do que são as supostas respostas certas, que temos como adultos.
No primeiro dia de aulas do 3.º período, tinha à minha espera uma aluna. Pediu-me para falar comigo. Sentámo-nos as duas. Ela falou, falou, falou. E chorou. Até sorrir e respirar fundo, aliviada. Perguntei-lhe como a podia ajudar. Ela respondeu: “Já ajudou. Eu só precisava de falar”. Às vezes é “só” mesmo isto.

Publicado no ComRegras


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