17/09/14

Filho

Olho para ti enquanto brincas e corres aos saltinhos pela sala. Vais à varanda sentir o vento e voltas logo para dentro a dizer "fio, fio" (frio). Vais petiscando deliciado um bocadinho de bolo de iogurte que o papá fez. Corres, danças, levantas os bracinhos e rodopias a sorrir, fascinado pelo que já consegues fazer e pelo tanto que estás a descobrir a cada instante. Vens ter comigo, pedes miminhos, e quando tens a dose certa de colo, aquela que estavas a precisar, voltas ao chão e continuas no teu mundo encantado, a cavalgar no teu cavalinho de madeira. Ouve-se o vento a fazer eco na varanda, a tua conversa com o cavalinho e o resto é o nosso silêncio de paz. Ouço e leio notícias, contam-me histórias de vida, sinto, sei. O mundo não é isto. Não é esta bolha de amor em que nos fechamos e queremos esquecer o que vai lá fora para te proteger. És feliz. Sorris. És sereno. Tens paz. Vais cantando as tuas canções inventadas numa língua que é só tua. E eu continuo a pensar: o mundo não é isto. Eu queria que fosse. A sério que sim. Ainda sonho tantas vezes com um mundo assim, tão encantado como aquele que ainda é o teu. Um mundo de paz, em que a ternura e o amor vençam sempre, porque todos temos esse direito. Ao amor. Mas já sou crescida e sei que o mundo não é assim, filho. E penso como te vou contar um dia essa história de um mundo que não é este que sonhamos. Como vou responder às perguntas que também eu fazia e faço e para as quais não tenho e acho que não há resposta. A minha fé é que esta bolha de amor, este mundo de encanto e de ternura em que vives agora, te ajude a ter força e coragem para superares todos os perigos que a vida e o mundo tiverem à tua espera. E que eu ainda possa andar por cá, para te dar a mesma dose certa de colo que agora te dou e os mesmos beijinhos que tudo curam quando fazes dói-dói.


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