14/08/14

A minha mãe coragem


 Nem sei por onde começar. Talvez por dizer que muito do que sou profissionalmente (e como pessoa, claro) se deve a ti, ao teu exemplo, ao que fui vendo e ouvindo ao longo dos anos. O teu respeito pelos utentes, sempre, acima de tudo. Pelas pessoas. De uma forma especial por aquelas com mais dificuldades. Sabes, nas minhas memórias de infância mais felizes aparece sempre o Centro de Saúde e a tua bata branca. As vezes em que ia contigo e percorria aqueles gabinetes forrados a cartolinas com desenhos da roda da alimentação, da amamentação, dos perigos do álcool… folhetos com informação sobre tudo em todo o lado… aquele cheiro a álcool e a adesivo que se entranhava no corpo (eu adorava aquele cheiro!). E a tua bata branca, sempre imaculada, que fizeste sempre questão de usar, mesmo quando passaste a desempenhar outras funções. E havia sempre sorrisos ali. Lembro-me das brincadeiras com a Regina, a Júlia, a Lurdes, a Amélia e tantas outras. Havia um espírito de união que hoje já não se encontra. Cada uma com o seu feitio e a sua personalidade forte, cada uma com as suas manias, cada uma com as suas opiniões. Mas eram amigas. E respeitavam-se. “Eram bons tempos”, ouço-vos ainda hoje dizer. Eu, que tenho muito menos vida do que vocês, sinto o mesmo.

Lembro-me desde sempre de ir contigo na rua ou irmos às compras e haver constantemente alguém que se aproximava de ti com carinho: “Olá enfermeira Helena!”. Para todos tinhas sempre um sorriso, conversa, tempo. Às vezes eu aborrecia-me de estar à espera enquanto conversavas. Mas tu interessavas-te genuinamente pela vida, pelos problemas, pela partilha de momentos felizes ou dramáticos de todos os que contigo se cruzaram, o que fazia com que tantas vezes perdesses a noção do tempo. Quando voltavas a mim, ouvia invariavelmente as mesmas histórias: “vacinei os filhos todos desta senhora”, “andei a fazer o penso de uma ferida a este senhor durante meses”… Deves ter vacinado meio mundo daquele concelho e conheces todos os velhotes daquelas serras. Pelo nome. Algo que se perdeu, já viste? Conhecer e tratar as pessoas pelo nome. Aprendi isso contigo. A importância do nome. E do tempo partilhado genuinamente com quem nos procura. E da dedicação a um serviço, a uma profissão, a uma missão. Ao longo de todos estes anos (tantos quantos eu tenho, pois estavas grávida de mim quando começaste a trabalhar), passaste por momentos tão duros, tão tristes, tão difíceis… eu sei bem as vezes que te vi chegar a casa a chorar, a falar ao telefone desesperada… e nunca desanimaste. Nunca te vi pôr baixa por isso. Às vezes, já nos últimos anos, quando te via cansada e a pores o trabalho à frente da tua saúde, eu dizia-te: “precisas de descansar, assim não podes andar, porque não pões uns dias de baixa?” e a resposta era sempre a mesma: “não, baixa não”. Quando às vezes estou doente ou não me apetece sair de casa para ir trabalhar, vem-me sempre à mente esta tua resposta. A tua coragem. Vi-te cair e levantares-te vezes sem conta. E o sorriso voltava sempre. E voltavas a dizer que o que te movia eram as pessoas, os utentes. Esse espírito de missão que sempre tiveste e que tanto me marcou. 

Gostava de ser capaz de te dizer o tanto que aprendi contigo como profissional. As memórias dessas conversas, desses momentos estão comigo, como sei que estarão sempre contigo. São memórias doces. Mas com cheiro a álcool e adesivo. Sei que hoje é com muita tristeza que te despedes. Secalhar até achas que não devias sair. E sei que te vai custar. Mas olha, sabes, estamos à tua espera. Cumpriste a tua missão. E eu orgulho-me tanto disso, mamã! Agora é tempo de cumprires outras. O sistema não se vai lembrar de ti, ambas sabemos, por muito que isso seja duro e terrível e injusto. Mas a senhora a quem vacinaste os filhos, o senhor a quem fizeste o penso da ferida durante meses, os velhotes acamados que visitavas e com quem conversavas alegremente, esses não te vão esquecer. E isso é que importa. Foi isso que me ensinaste. São as pessoas. É tudo o que importa, mamã.

Hoje todas as palavras são para ti.


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