21/07/14

Happy Days


Falar de Gourim é falar de amor. Não há outra palavra para descrever o que encontramos depois de percorrermos a pé as sete curvas que nos levam até à Casa Margou. Este caminho, com cerca de 3km, apenas pode ser percorrido a pé ou de jipe (e este é um fator importante para quem deseja entrar nesta aventura). A história de Gourim é também a história de Maria, a mulher incrível que tem feito renascer esta pequena aldeia perdida na Serra de São Macário. Perdida é literalmente o termo. Chegar a Gourim é uma aventura. Aqui não há GPS que nos ajude e a rede de telemóvel não chega até estes caminhos. Aliás, em Gourim há apenas um local (assinalado por uma cruz no chão) onde conseguimos ter alguma rede (quem tem 96), mas mesmo isso não é garantido, pois nem sempre se consegue. Isto significa que é preciso preparar-se para estar completamente isolado do mundo. Não há estrada alcatroada para lá chegar, não há rede, não há televisão ou internet. Mas há tudo o resto e, acima de tudo, há a maravilhosa experiência de conexão connosco próprios. Não é por acaso que Maria chamou à Casa Margou “o lugar do reencontro”.
Em Gourim há duas coisas que me marcaram. Uma delas é o contacto com a natureza, a comunhão plena que sentimos com a montanha, o silêncio indizível. O facto de não haver rede nem os distratores “comuns” do nosso dia-a-dia acabam por facilitar este encontro, mas há algo maior que nos chama, há um apelo para nos entregarmos a esta experiência. Pensar na vida dura das pessoas que viveram aqui, esquecidas no meio da serra, é outra. É verdade que hoje sentimos mais o isolamento porque sabemos o que é ter acesso a tudo, mas mesmo assim é impressionante pensar como viviam as pessoas nesta (e noutras) aldeia esquecida do mundo. Aqui nasciam e aqui morriam. E o intervalo entre estes dois pontos da sua existência eram passados a trabalhar, arduamente, nas encostas da montanha. Não sei se seria assim, mas é o que imagino ao pensar nesses tempos.
Outra marca que se cola a nós, à pele, aos pensamentos, ao coração, é a força de Maria, que literalmente moveu montanhas para fazer reerguer Gourim, a aldeia onde nasceu e que estava abandonada há mais de 20 anos. Impressionou-me particularmente quando a Maria partilhou comigo que todos os materiais para a reconstrução da casa foram transportados num trator contratado só para o efeito. Foi um trabalho de formiguinha apaixonada e nem imagino quantas viagens tiveram que fazer para levar tudo o que foi necessário para as obras. E depois é tudo o resto. O sorriso. Aquele sorriso e aquela alegria contagiante. E o abraço. O abraço que nos acolhe logo à chegada e que se repete de forma mais demorada e cúmplice na despedida. Há qualquer coisa que nos liga à Maria e não sabemos explicar o quê. Ou talvez saibamos. Ainda agora ao escrever estas palavras fico comovida ao recordá-la. Num mundo tão superficial, comove encontrar alguém que luta com esta energia boa e inesgotável por um projeto que parece impossível a quem está de fora. Só pode ser amor. É o que todos dizemos, com a voz embargada de emoção, sem conseguirmos dizer muito mais, na viagem de regresso. Cada um traz consigo sentimentos que não sabe partilhar, de tão forte que são.
Em Gourim podemos apenas estar em contemplação, em descanso, a ler ou a escrever. Ou podemos fazer caminhadas pela montanha, descer até ao rio Paivou e refrescarmo-nos nas suas águas límpidas. Em alguns fins-de-semana, podemos ainda participar nos workshops que a Casa Margou vai organizando e que nos convidam a descobrir mais sobre nós e o nosso equilíbrio com o mundo.
É preciso preparar-se para ir a Gourim. Ou então não. Talvez baste apenas sentir o apelo e ir. Entregar-se à experiência e deixar fluir. Eu voltarei, sem dúvida. Obrigada, querida Maria.

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