06/01/14

Vínculos


Há muito que penso nisto. Vou pensando, observando, lendo, perguntando, ouvindo e volto a pensar. O tema é difícil e polémico. A verdade é que nenhum de nós, por muitas projeções que faça, pode dizer o que vai acontecer daqui a 20/30 anos e quais os resultados ou consequências destas mudanças.

Falo da utilização de equipamentos tecnológicos por crianças cada vez mais pequenas. Nos últimos tempos têm sido divulgadas muitas notícias sobre o tema. Uma delas foi sobre uma espreguiçadeira de bebé com um suporte para ipad. Quando estive grávida, ao percorrer algumas lojas de puericultura, assustou-me a quantidade de equipamentos que permitiam "aos pais estar livres" (palavras que ouvia por parte dos funcionários) enquanto o bebé estava entretido. Esta espreguiçadeira é só mais um, com uma nova aplicação. A questão, sinceramente, não é a utilização de uma tecnologia. Não sou radical (nem gosto de radicalismos) e, por isso, não me choca que uma criança veja uma imagem ou um vídeo num ipad, da mesma forma que não sou contra o uso das novas tecnologias nem defendo nenhum regresso às cavernas nesta matéria. No entanto, como comecei por dizer, observo. O meu filho e os outros bebés e crianças. Ouço. E sinto. E percebo que, cada vez mais, uma criança precisa de estabelecer laços fortes e seguros com os adultos (com as suas figuras de referência), pois é esse vínculo que lhe dará uma estrutura forte no futuro, face a desafios maiores. Mas vinculação só se consegue com comunicação, com presença, com olhar, com toque, com sorrisos e palavras. Tudo aquilo que um equipamento tecnológico não dá. Por muito que "fale" ou "cante", um equipamento tecnológico não é um ser humano (nem vai ser nunca) e não se substitui a ele nesse processo de descoberta do mundo, dos outros e de si próprio que um bebé necessita.
Neste fim-de-semana, mais uma reportagem sobre aquilo a que já chamam as "icrianças". Durante a mesma, a diretora de um colégio dizia (a propósito da utilização de ipads na escola, com crianças do 1.º ao 4.º ano de escolaridade) que "não nos podemos esquecer que estes meninos estão a ser preparadas para entrar no mercado de trabalho". Posso estar errada, claro, mas sinceramente não me parece que seja por uma criança ter contacto mais cedo com equipamentos tecnológicos que venha a ter mais sucesso ou a ter melhores competências para o mercado de trabalho. Estamos a falar de crianças!! Claro que vão crescer, desenvolver-se e tornar-se adultos, mas até lá há um longo percurso e muitas outras competências que se têm provado serem muito mais importantes no tal acesso ao mercado de trabalho. E, volto a salientar, muito mais do que ipads ou iphones, o que as crianças mais precisam é de adultos equilibrados, que as amem, que lhes dediquem tempo, que lhes mostrem o mundo, que lhes proporcionem experiências de descoberta e de contacto com o outro.
No meu trabalho com escolas, e na sequência desta reflexão, este é um tema que surge muitas vezes e que é importante ser discutido. Perante a utilização das novas tecnologias e o acesso à informação por parte de crianças cada vez mais pequenas, qual é, hoje e no futuro, o papel do professor? Há inclusivamente quem defenda que o professor está em vias de extinção. Mais uma vez, não sou radical e, neste caso, não concordo minimamente com esta ideia, pelo contrário. Penso que o professor é cada vez mais necessário, mas que há igualmente uma necessidade de adaptar o seu papel àquilo que será a escola no futuro. No entanto, há algo que me parece evidente. Os nossos alunos precisam cada vez mais de aprender a criar relação, a ser e a saber estar em sociedade (incluindo o mercado de trabalho). É verdade que esse é um papel inquestionável da família, mas penso que o professor tem também a este nível um papel absolutamente fundamental. Mais uma vez, na escola como na vida, as tecnologias não podem (e penso que não vão) substituir a relação humana. E é a este nível que cada vez mais sinto que precisamos investir e trabalhar.

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