24/01/14

Sorrir



 Costumo dizer que não fazemos ideia da vida das pessoas. Do que acontece dentro de sua casa. Dentro de si. Bem, eu faço alguma (pequena) ideia, graças à minha atividade profissional. Tenho conhecido pessoas incríveis, com sorrisos lindos, com uma boa disposição invejável, com garra e força para lutar todos os dias por si e, tantas vezes, por outros. Quando as descubro... a minha admiração aumenta ainda mais. Às vezes são vidas tão duras que fico com um nó na garganta e me apetece a mim largar num pranto e perguntar como é que é possível. Como é que, tantas vezes com tanta dor, aquela pessoa que está à minha frente sorri? E sorri verdadeiramente, de forma genuína e espontânea, não porque tem que sorrir para esconder algo. Fico esmagada com a lição de vida que recebo destas pessoas.

Nestes momentos lembro-me sempre da dona Lucinda, que acompanhei num processo de educação de adultos, uma senhora linda, doce, com um sorriso encantador, que acolhia todos os alunos na sua reprografia da escola com uma palavra de ternura e de conforto. Um dia disse-lhe que admirava a sua postura perante a vida. Ela sorriu muito tranquila e, a olhar-me nos olhos, disse-me: "se soubesse a minha vida"... e abriu o livro e contou-me a sua história. Casou com o homem que amava e alimentavam o desejo de ser pais. Eram felizes, tinham uma vida simples, sem grandes ambições, mas eram muito felizes, contava-me a sorrir enquanto as lágrimas lhe caíam pelo rosto. No dia em que descobriu que estava grávida, saiu de casa, beijou-o como sempre, e pensou fazer-lhe uma surpresa ao fim do dia. Mas esse momento não chegou. O marido faleceu num acidente antes que a noite caísse. E ela ficou sozinha, com uma filha tão amada a crescer-lhe no ventre. Dizia-me que pensava muitas vezes o que ia ser dela, mas que, nesses momentos de maior angústia, o amor que sentia por ele e pela filha que tanto desejaram lhe dava uma força maior que tudo e a fazia erguer-se, levantar a cabeça e sorrir. Dizia-me que quem ama só pode sorrir, por muita dor que sinta no mais fundo de si. Que naquele momento, passados tantos anos, ainda o amava e sentia o beijo que lhe dera ao sair de casa. Muitas vezes atendia os meninos ou os professores e só lhe apetecia fugir a chorar, mas sorria. Não era uma defesa ou uma máscara, o sorriso era a sua força. Lembro-me muitas vezes dela e do tanto que me ensinou com a sua história e o seu exemplo. Não devemos julgar ninguém pelo que nos parece. Devemos, sim, estar atentos. Afinal, muitas vezes o maior sorriso pode esconder a maior dor.

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